Conheça a História do Judaísmo

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O VisãoHolística tem a satisfação de trazer a Síntese da História Judaica, que é mais uma brilhante contribuição do engenheiro, historiador e profundo conhecedor de Kabala, Milton Schwartz .

Este apaixonante texto conta a luta do povo judeu desde os seus primórdios até a construção do Estado do Israel, bem como a resistência ao Nazismo. Ele está dividido em duas partes. Estamos publicando a primeira; e na segunda quinzena de outubro estaremos trazendo a segunda. Fique atendo, pois além desta magnífica história do povo hebreu, que tanto contribui (e contribui) para a construção de nossa civilização, estaremos publicando outros trabalhos sobre a comunidade judaica e Kabala. Bom estudo.

SÍNTESE DA HISTÓRIA JUDAICA 1º Parte

Disse Gräetz que são dois os povos criadores da civilização humana: o helênico e o hebreu (O autor deve estar se referindo à civilização ocidental; mesmo assim a afirmação desconsidera outros povos importantes ). O povo helênico sucumbiu "quando as falanges macedônicas e as legiões romanas lhe mostraram a vida sombria, grave e sem sorrisos, como a que haviam conhecido; então sua sabedoria transformou-se em excentricidade". O hebreu, ao contrário, permaneceu vivo em meio a impérios que se extinguiam, porque soube dar à vida um fim determinado e ponderado. Querendo, pode-se chamar a este objetivo do povo israelita "a moral pura" e, ainda que a palavra esteja muito aquém da idéia, o que interessa destacar é que o povo judeu entendeu que seu dever é tomar a sério essa "moral pura".

Para que se possa compreender isto, é necessário conhecer, ainda que sumariamente, a história do povo de Israel. Portanto, daremos uma síntese dos acontecimentos pelos quais passou o povo judeu, desde os tempos mais remotos.
Corria o ano 2140 (A.E.C.). Um homem inspirado chamado Abraão, habitante da alta Mesopotâmia, recebeu de Deus a ordem de abandonar sua cidade natal e estabelecer-se num país que lhe seria designado, fundando ali um povo que seria cumulado de favores e objeto de especial predileção. Abraão estabeleceu-se com seus rebanhos no país de Canaã. Seu poder patriarcal passou a seu filho Isaac e deste para Jacob que depois o passou para seus doze filhos. Um destes, chamado José, vendido como escravo ao Faraó, rei do Egito, soube captar tal prestígio e autoridade, que chegou a ser vice-rei do Egito. Nesta qualidade chamou seus irmãos e lhes entregou a terra de Goshen para que a cultivassem e vivessem de seus produtos (Séc. XVII - A.E.C). Os israelitas tornaram-se tão numerosos e fortes, que os reis do Egito, temerosos de sua importância, os submeteram a dura escravidão, acabando por decretar a morte de todos os filhos varões que nasceram naquele povo. Porém Moisés ( Séc XII - A .E.C.), um desses meninos, jogado às águas do Nilo, foi salvo pela filha do Faraó e educado na corte do rei. Mais tarde esse menino seria o libertador daquele povo e seu legislador. Efetivamente, por decreto divino, Moisés organizou o grande êxodo dos israelitas, que segundo a Bíblia foi de 600.000 homens. Em busca da terra prometida atravessaram o golfo ocidental do Mar Vermelho e passaram 40 anos no deserto experimentando todas as dificuldades da vida nômade. Ao pé do Monte Sinai, Moisés deu aos israelitas o Decálogo, ou seja, os dez mandamentos, supremo código moral da humanidade.

Antes de morrer, Moisés (séc XIII à Séc. XII - AEC) nomeou como seu sucessor Josué, o qual, depois de atravessar o Jordão e derrotar os inimigos que se opunham à sua marcha vitoriosa, distribuiu as terras conquistadas entre as doze tribos. Josué foi sucedido pelos Juizes, entre os quais Jefté, Sansão e a profetisa Débora, que nos legou um canto lírico (Juizes, 5) de grande magnitude.

O último dos juizes foi Samuel, que a pedido do povo, mudou a forma de governo e instituiu a monarquia, nomeando Saul (1020 AEC) como primeiro rei. Morto Saul, entre vitórias e derrotas, foi David (1.000 AEC) ungido como rei instituindo Jerusalém como a capital do Reino de Israel. E a este sucedeu seu filho Salomão, o qual levou o país ao cume da felicidade e causou a admiração de todo o Oriente e Ocidente por seu saber e sua sagacidade. No ano de 960 AEC foi construído o Primeiro Grande Templo, centro nacional e espiritual do povo judeu.

Após a morte de Salomão, seu reino foi dividido (930 AEC) entre Roboão, seu filho, reinando sobre Israel e Jeroboão, seu adversário que governava o povo de Judá; o primeiro contava com duas tribos e o segundo com dez, tendo havido entre eles uma luta constante. As nações vizinhas aproveitaram-se desta discórdia para sua própria expansão e o povo de Israel perdeu assim o caráter específico que lhe havia assegurado o rei Salomão.

Depois de uns poucos anos de reinado, Roboão foi vencido (722 à 720 AEC), primeiro por Sisac, rei do Egito, que tomou Jerusalém e se apoderou do Templo e dos tesouros reais, e segundo por Nabucodonosor, rei da Babilônia (586 AEC).
Pelo trono de Israel desfilaram então alguns reis indignos como Ahab, Joram, Jezebel e Atalia. Todos estes acontecimentos foram prelúdios da grande derrota que sofreu o povo hebreu ao cair em mãos de Senaquerib e Salmanasar, que o levaram cativo para a Assíria. Começou assim o grande êxodo; os judeus choraram, se desesperaram, procuraram consolo nas palavras dos profetas, e o judaísmo, como já dissemos, ampliou seu campo. Já não era a religião do pequeno povo que vivia à margem do Jordão. O Deus dos filhos de Israel, a quem estes haviam atraiçoado e por isso sofriam o exílio, passou a ser, de Deus de um povo dolorido e prostrado, o Deus de toda a humanidade. Os exilados haviam rompido o círculo do nacionalismo e acercavam-se do universalismo; e quando por fim Ciro, destruído já o império assírio, permitiu aos desterrados que voltassem a seu país, Esdras e Nehemias trabalharam para formar novamente um povo, ao qual proporcionaram uma moral mais elevada que a anterior.

A parte da Palestina onde o povo emigrante se estabeleceu foi chamada Judéia e seus moradores receberam o nome de judeus. Povoaram novamente as cidades e obtiveram permissão para reconstruir o Templo e as muralhas de Jerusalém (585 à 583 AEC). A forma de governo daquele novo Estado foi uma espécie de república teocrática. O povo vivia tranqüilamente, refazendo-se do abatimento de que havia sido vítima durante os anos de cativeiro na Babilônia. No tempo dos selêucidas ou helenistas (322 AEC) o povo judeu sofreu muito novamente, pois estes soberanos o sobrecarregavam de impostos e o perseguiram por sua religião. Nesta época, Alexandre Magno conquista a Terra de Israel.

Antíoco Epífano mandou erigir uma estátua de Júpiter Olímpico no meio do Templo e fez morrer muitos judeus que não quiseram abjurar de suas crenças ante essa divindade. Surgiu então uma família cujos membros uniam a um grande talento militar, notórios dotes de governantes. Foram os Macabeus (Hasmoneus). O primeiro deles que resistiu aos decretos de Antíoco foi Matatías, que matou um oficial e por isso viu-se obrigado a fugir para as montanhas seguido de um punhado de valentes. Seu filho Judas Macabeu (Yehuda Hamacabi) venceu os sírios em diversos encontros; entrou vencedor em Jerusalém e restabeleceu o culto divino (166 à 160 AEC). Após a morte de Judas (Yehuda), seus irmãos Jonatan e Simão continuaram sua obra, lutando pela liberdade de sua pátria, até obrigar Antíoco a aceitar a paz.

O judaísmo saiu vitorioso de seu choque com o helenismo (142 à 129 AEC). Conhecia-se sob este nome a forma de civilização grega que, estando já a Grécia em decadência, foi difundida pelo mundo asiático e egípcio por Alexandre Magno e especialmente por seus sucessores. O helenismo difundiu-se também na Judéia, onde o sentido grego da vida, mais superficial e cheio da formosura da natureza, havia entusiasmado muitos judeus que, possuindo possivelmente tendências assimilacionistas muito desenvolvidas, haviam começado a sentir o peso de sua doutrina mãe, demasiado séria e de suas normas de vida muito severas.

Na Judéia o helenismo foi combatido com armas pelos Macabeus e verbalmente pela obra incansável e contínua dos sábios, os quais, com o correr dos séculos foram substituindo os profetas ( 129 à 63 AEC). Enquanto os "hassidim", isto é, os puros, os defensores dos Hashmoneus, se afastavam da visa política, surgiu um novo partido, melhor dito uma nova seita: a dos saduceus. Estes, aferrados com vigor ao sentido literal do código sacerdotal da Torá, não prestaram atenção e rechaçaram a lei oral (Mishná)  que ia se difundindo entre o povo por obra de outra seita: os fariseus. Os fariseus representaram na época hashmonéa e mais tarde na queda de Jerusalém o verdadeiro elemento salvador do judaísmo. Com efeito, estabeleceram uma doutrina intermediária entre a dos saduceus, rígidos sacerdotes que, apesar de seu sacerdócio dedicavam demasiado tempo à vida mundana, e a dos essênios, que com seu ascetismo e sua vida contemplativa se esqueciam da vida humana, de suas necessidades e suas desditas. Os fariseus, por seguirem a lei oral, foram os iniciadores do vastíssimo trabalho que se conhece com o nome de Mishná . Não se deve esquecer que as mais puras doutrinas evangélicas, que são um compêndio das judias, surgiram não só dos círculos essênios, como também dos fariseus; e que Jesus mesmo, assim como os primeiros judeus conversos que se chamaram cristãos, tiveram relações amistosas com muitos dos fariseus.

Porém, enquanto os doutos sábios trabalhavam pelo desenvolvimento da moral do povo, a política palestinense ia piorando de dia a dia. Uma espada mais pesada e mais forte que a dos gregos, a de Roma, havia chegado ao Oriente. Os judeus, com suas lutas religioso - filosóficas e com seu Deus, muito acima dos do Panteão Romano, molestavam os imperadores que viam neles uma causa perene de tumultos. Jerusalém é capturada pelas legiões romanas comandadas por Pompeu. Neste mesmo ano, o Templo de Jerusalém é reformado.

E começou a guerra judaica ( 63 AEC).

Por Milton Schwartz

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