Eu pensava que vivia num mundo relativamente compreensível, onde bem e mau alternam-se. Alguns poetas cantaram em versos muito do que estava ocorrendo em seu tempo. Lembro com muita freqüência de algumas músicas. Sinto e percebo a angústia de uma grande desilusão: Sonhos grandiosos de gerações do século passado, começaram a ruir nos ‘felizes' anos 80.
Por que felizes? Eu os considero assim por uma série de razões:
Foram mais abertos e simpáticos que os supermodernos anos 70, para mim com gosto de artificialismo e falsas garantias. Havia uma certa modernidade no ar, misturada com uma noção de liberdade que também não me convencia, uma felicidade para mim muito aparente.
Qual foi seu ponto positivo? Para mim, a música pop, o rock em pleno vapor, a música brasileira extremamente criativa e bem humorada para escapar de uma série de armadilhas. Naquele ‘tempo' ainda não havia FM por aqui, mas eu era mais feliz neste ponto e não sabia. Eu conseguia ouvir tudo o que gostava, amava e ainda sou fã ardorosa dos sons musicais. As emissoras tinham um prestígio e estabilidade tidos como eternos, talvez. Estava muito bom pra ser verdade. Desde que surgiu, o rádio não conhecera (não fosse a televisão), uma outra alternativa.
Mas, os setenta deixaram um rastro de fim de festa gostoso com os ‘Embalos de Sábado à Noite' dos quais a música tema ajuda a espantar a tristeza e baixo astral. Tinha um sabor nostálgico também delicioso. Foi uma fase marcante, de promessas e sonhos que consegui realizar. É John Travolta, você marcou um momento interessante, o filme foi tão agradável quanto os pequenos dramas e lutas de nosso cotidiano.
Bem, quando virou a década, o rock brasileiro foi muito feliz. Deixou muitas saudades, também foi uma fase de ouro nas rádios que eu ouvia. Aí já tinha a FM, que saudade!!! Estações de qualidade a escolher, eu me divertia e tinhas meus discos para ouvir, o ‘som' é um equipamento indispensável e não vivia sem ele. E os flash-backs, extremamente inspiradores, embalaram a noite de todos os seus ardorosos ouvintes. Mas aos poucos o panorama do mundo foi mudando, neste momento ainda não era possível perceber o quanto mudaria.
Nos fatídicos anos noventa eu comecei a lembrar da letra ‘ ideologia ', não dava pra esquecer. Agora, todo dia, toda hora e todo minuto trechos dela me reaparecem. Ela coloca bem claro como nos sentimos quando muitas estruturas começam a ruir e quantas delas fazem parte da nossa vida! Felizmente o grande barato desta década foi a ‘queda do muro', não sem provocar uma guerra básica. E vieram outras, outras e outras.
No entanto, não esperava a morte de uma personalidade pública com a qual muitas mulheres se identificavam, a Princesa Diana. O mundo já estava ficando mais e mais complicado. E cada vez mais difícil de entender. É uma lição de casa que nem sempre tem professor. As provas vão ficando mais complexas...
Agora, com mundo globalizado, com ‘ovelha e gente de proveta', 'amigos virtuais, virada de milênio, desemprego recorde, violência na ordem do dia e f alta de estações boas como as que eu ouvia, tudo me parece mais um verdadeiro ‘samba do crioulo doido'. É, aquele mesmo que começa assim:
“Foi em Diamantina, onde nasceu JK, que a princesa Leopoldina a resolveu se casar, mas Chica da Silva tinha outros pretendentes e obrigou a princesa a se casar dignamente. Lá, lá, laia, laia, o bode que deu vou te contar... dona Leopoldina virou trem, Dom Pedro é uma estação também...”
É outra música básica para os dias de hoje. Além de saber que a história que eu aprendi na escola em preto-e-branco, pouco tem a ver com a colorida história e que ainda está sendo contada com suas dores e amores (mais de dores que de amores), muitos dos fantasmas daquele tempo estão agora sendo incomodados e realmente desmascarados. Agora nem criança acredita em certas versões, graças a Deus. Já achei o meu narizinho de palhaço, típico de reivindicações trabalhistas, que nunca deram lá em muita coisa.
Felizmente ‘meus heróis' não morreram de overdose, mas de ‘desastre automobilístico' de assassinato à queima-roupa e câncer. Um de meus ídolos internacionais de peso agora virou ‘monstro de filme de sexo de última categoria' literalmente. Ainda é difícil de acreditar, mas é verdade.
Agora, para piorar, mais um crime ‘sofisticadamente sadomasoquista' e inteligentemente planejado toma de cara os noticiários para nosso ‘horror', pois supera em crueldade um fato relativamente recente na espécie humana. Os filhos estão morrendo como formigas, os pais andam pra lá de assassinados, os zeladores da ordem e da segurança também estão sendo sacrificados, o que posso esperar mais? Preciso colocar meus óculos cor-de-rosa típicos de “Elton John” e rápido, antes que meus olhos escureçam de vez e um protetor feche para sempre meus ouvidos.
O mundo não só ‘encolheu' como ficou menos aconchegante mais realístico, mais moderno e, no entanto, muito mais neurotizante. Precisamos muito mais do que antes da nossa espiritualidade, cultivar uma tranqüilidade interna e externa, um cuidado extremo, pois os perigos agora 'parecem' muito mais ameaçadores.
Dizem que ‘depois da tempestade vem a bonança' e que toda mudança ‘é lenta e dolorosa', acho que estamos nos tempos mais representativos e críticos da espécie humana. Pertencemos à geração do ‘auge'... que assiste a coisas nunca imaginadas nem desejadas em outros tempos da história. Eu não me arriscaria a dar uma de futurista, vou fazer como o ‘artista', aquele que eu digo que é ‘surfista', preciso estar por cima da onda para não ser tragada por ela. E tocar na minha cabeça a música do Guilherme Arantes: 'Amanhã'...
Ou seja, apesar de tantos discursos e vozes em favor da paz, da ordem, da virtude, do progresso, da saúde e prosperidade, o que no fundo significa ' união ', ainda não foi compreendida a grande verdade: "De mãos dadas e com uma visão holística, construiremos um mundo melhor".
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