Menor Abandonado

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I
O menor abandonado
É um monstrinho criado
Para ser um ladrão:
Nasce puro, pobre, sujo,
Mas é muito maltratado,
Cria ódio no coração.
Mãe e pai, pobres diabos
Se é que isso eles têem.
São completos desajustados
Fabricando deserdados
De família, amor e Deus.
A visão de mundo torto
Chega sempre pela porta
Do desamparo e da dor.
Como sente-se a criança
Vendo todo mundo limpo
Vestidinho, arrumadinho,
Caminhando todo dia?
Vendo as outras crianças
Pelos braços dos seus pais:
Vão ao parque, vão à igreja,
Que sabor tudo isso tem?
Eles não sabem, ‘não merecem’,
E inferiores se julgam.
Ninguém diz: você está lindo!
Olha lá que bonitinho,
Aquele menino sujinho,
Encatarrado, mal lavado,
Cheira a cocô, a xixi.
Ninguém olha com carinho
A menina rasgada, sujinha,
Toda descabeladinha.
Não tem comidinha na boca,
Não tem mãe preocupada,
Com sua falta de apetite,
Pois fome é o que sempre têem.

II
Não tem contador de história,
Professor, escola, playground.
Até nos parques e nas praças
Se forem brincar com outros
Vão sair todos correndo:
Quem quer ficar sujo ou doente,
Chegando perto ‘dessas coisas’?
Daí pra revolta é um passo
Porque ‘eles’ e eu não?
Eu nunca tive carinho,
Eu nunca recebo calor,
Eu não tenho refeição.
Vivo? Sou uma sombra,
Sou um morto em movimento.
Eu sou, ao mesmo tempo não sou.
Ando feio, maltrapilho,
Mal cheiroso, nauseante.
Saio atrás da minha mãe
E ela nem mesmo me olha!
Vou correndo pro meu pai,
E ele debocha de mim.
Com um sanduíche estragado
Que me deram pra comer,
Eles divertem-se comigo
E ainda vão perguntar:
Está chorando, por quê?
Outro dia no Metrô,
Alguém descia a escada,
Os pequenos para o maior:
_ Não tem comida pra nós?
_ Não podemos ir comer?
_ Não pode coisa nenhuma!
_ Nós podemos ir cheirar?
_ Também não pode ir não!
_ Não pode m... nenhuma!
_ Nós estamos com sede!
_ Problema de vocês!

III
O teto, a coberta, o brinquedo,
É tudo um direito alheio.
Querem que eu seja mau,
Muito bem, eu o serei.
Vou mostrar à sociedade,
Devolverei as autoridades
Todo mal que ela me fez.
Vou matar, estuprar, traficar,
Tudo o que aprendi a ser.
Vou debochar desse Deus
Que eles dizem existir.
Se ele existe, eu não sei.
Eu só sei do que vivi
E com muitos aprendi
A só roubar, matar e me drogar
Para poder sobreviver.
Ler ao menos eu não sei,
Talvez aprenda no xadrez.
Lá talvez eu ouça um Padre,
Ou quem sabe um Pastor,
Irão dizer que sou errado:
Eu sou um pecador.
Só por não terem esterilizado
Aquela minha pobre mãe
Que é mulher antes de tudo,
Uma dessas aí da rua
E não poderia pecar
Pois a mulher se ‘pode’ castrar
E isso a religião não faz,
Nem tampouco orientar,
Muito menos financiar.

IV
Eles também não me quiseram
Se eu tivesse sido entregue
Numa porta onde eles moram.
Se nos fundos das Igrejas
Eles fizessem uma creche,
E uma escola, uma oficina,
Para ocupar esses filhos
Dessas mães ignorantes
Que infelizes estupros
As fizeram engravidar
Se estivessem pondo em prática
O seu grande amor a Deus,
E por seu filho Jesus Cristo,
Que amava tanto as crianças
Esse mundo não estaria
Tão horrível como é hoje.
Cada um dá o que tem.
Quem não tem, o que vai dar?
É por isso que eu retiro
De todos o que me negaram:
Paz de espírito, tranqüilidade,
Respeito, dignidade,
Cidadania, identidade.
Eu mato sem piedade,
Aquele que já me matou.
Minha vida não tem valor,
Por quê a dele teria?
Eu nunca parei pra pensar
Se uma dessas pessoas
Que sempre venho a matar
É alguém que não tem culpa.
Pra mim são todos iguais,
Ninguém me tratou diferente,
Ninguém me deu atenção,
Ninguém me viu como gente!


DENISE CAMILLO:
Editora e revisora, Administrador de Empresas, Locutora e Produtora de rádio.
Participou de Coletâneas pelas Editoras TABAS Cultural e Litteris Editora, na década de 90 nas categorias prosa poética e poesia.
Estreou no quadro “Novos Talentos”, do Programa Musical “Melodias de Todos os Tempos”, Rádio Carioca (1993), produziu e apresentou a “Crônica do Dia”; “Novos Talentos” e “Curiosidades” do programa, onde integrou a equipe de produção.

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