Nos Domínios de Cordel |
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| Editor Responsável: Francisco Paulino Campelo 10 - Galope a Beira-Mar Gênero muito apreciado pelos apologistas da Poesia Popular que,
juntamente com o Martelo, recebeu a denominação de Décima de versos
compridos. O Galope é assim chamado em virtude de ser empregado mais em
temas praieiros. È constituído de uma estrofe de dez versos de onze sílabas,
com o estribilho cuja palavra final é mar.
Eu cantando a Galope ninguém me humilha, José Limeira, Poeta do Absurdo, dá-nos exemplo de tremendo disparate:
Conheço, demais, o rio Paraíba, O violeiro cearense Simplício Pereira da Silva, residente na vila de Barreiras, município de Redenção, criou um estilo interessante de Galope, que ele denominou de "Galope por dentro do mato". Trata-se de um gênero que cuida, exclusivamente, de temas sertanejos. As estrofes abaixo são de sua autoria:
Companheiro, eu do mar não conheço nada,
No sertão, à caçada, eu fui certo dia,
11 - Parcela
A Parcela é uma Décima com versos de quatro ou
de cinco sílabas, conhecida também pela denominação de Décima de
versos curtos.
Eu sou judeu Manoel da Luz Ventania revidou-o pelo ataque a Bananeiras, terra de seu nascimento:
Sou bananeira ...
Da peleja de José Félix com o cego Benjamim Mangabeira, recentemente
falecido em Fortaleza, colhemos estas Parcelas de cinco sílabas:
J.F. Sou velho na vida,
B.M. Eu dou, tu apanha(s)! Da imortal peleja de José Pretinho com o cego Aderaldo, escrita pelo genial poeta piauiense, de Parnaíba, Firmino Teixeira do Amaral, registramos estas Parcelas de cinco sílabas:
Negro é raiz
J.P. Fale doutro jeito,
12 - Quadrões Ao longo do tempo, o Quadrão tem sido o gênero a receber o maior número de alterações, não só na sua forma interna, mas, também, na estrutura das estrofes, em geral. O Quadrão antigo é formado por uma estância de oito linhas, pertencente à família dos setessílabos, rimando o primeiro verso com o segundo e o terceiro; o quarto com o oitavo, e o quinto com o sexto e o sétimo, contando, no final, o estribilho de sua denominação. Com Lourival Batista, um Quadrão à antiga:
O Cantador repentista, Posteriormente, o Quadrão em oito apareceu com ligeira modificação na sua forma interna, isto é, o quarto verso que rimava somente com o oitavo passou a rimar também com o quinto. Numa homenagem póstuma ao ilustre mestre Lacerda Furtado, transcrevemos um Quadrão no novo estilo, por ele escrito e oferecido ao grande cordelista paraibano Joaquim Batista de Sena:
Namorando a Salomé,
13 - Quadrão Trocado Com versos de doze sílabas, e conservando a mesma ordem das rimas do estilo anterior, criou-se o Quadrão trocado, gênero que exige muita segurança e desembaraço do repentista; apresentando, a partir da terceira linha, palavras que vão se alternando no verso subseqüente. As duas últimas linhas da estrofe formam o estribilho que se encerra com a palavra Quadrão. O repentista Dimas Batista improvisou esta difícil estrofe:
É no sangue, é no povo, é no tipo, é na raça,
Não só na forma, mas na estrutura, o Quadrão sofreu alterações bem
acentuadas. Daí, quatro tipos de Quadrões incluídos na Décima; todos
com o estribilho na última linha da estrofe.
Longe do mar de Netuno,
A. Júpiter onipotente, O Quadrão dialogado apresenta-se agora, com uma pequena modificação: o último verso deste novo tipo é cantado pelos dialogantes, e não por um só, como no caso anterior. A estrofe que se segue é de um desafio dos cantadores cearenses Simplício Pereira da Silva e Manoel Furtado, quando dialogavam, fazendo referências a um sapo que penetrava no salão, onde contavam:
S.P. Colega, lá vem um sapo, Há pouco, os irmãos Batista criaram este gênero de Quadrão em dez, que se diferença do estilo anterior, apenas por ser constituído de perguntas e respostas, o que vem a exigir grande parcela de esforço e de dom poético: cada pergunta deve ser respondida com inteligência e segurança, para o bom êxito da estrofe. Imaginemos dois cantadores (A e B), num duelo cerrado:
A. Para que serve a ciência?
14 - Gabinete Gênero que foi muito apreciado pelo imortal cego Aderaldo, porém de pouco uso atualmente. É cantado em versos de sete sílabas, sem número de linhas determinado, e com estribilhos nas linhas: sete, oito, nove, dez e nas duas últimas. Otacílio Batista exemplifica:
O povo deseja ouvir O violeiro cearense, Alberto Porfírio, criou um estilo de Gabinete mais interessante e simplificado: o Cantador faz uma Quadra, em seguida, seis versos de onze sílabas, com rimas que se casam (rimas iguais), desenvolvendo, nestes, o tema da Quadra. Para finalizar, faz três versos de sete sílabas, rimando o primeiro com a estribilho (Quem não canta Gabinete), e o terceiro com os versos da Sextilha. O exemplo abaixo é do próprio criador do estilo:
Quem é forte não se gaba,
Amei uma jovem que me queria bem,
Resolvi foi no cacete;
15 - Toada Alagoana É um gênero pouco usado, porém muito bonito, em virtude das rimas encadeadas e da agradável toada. Sirvo-me de uma estrofe de Otacílio Batista, companheiro de trabalho, para mostrar este gênero:
Vai Otacílio Batista, Ao lado da toada alagoana, existe o Martelo alagoano, cuja diferença do Martelo agalopado está na toada, que é um pouco mais lenta, bem como no estribilho, que apresenta no final das estrofes com a palavra de sua denominação.
16 - Meia Quadra Entre as modalidades mais difíceis da Poesia popular, está a Meia Quadra, estilo que apresenta estrofes com número de versos não determinados, e com quatro linhas iguais na parte final:
Quando eu disser vida e meia,
17 - Dez Pés de Queixo Caído Este gênero, ainda em voga, está incluído na Décima, apresentando, no final de cada estrofe, este estribilho: "NOS DEZ DE QUEIXO CAÍDO":
É tão grande o meu valor,
18 - Gemedeira Pela própria denominação do gênero, vemos que serve para temas gracejantes. É a Gemedeira um estilo de poesia, caracterizado pela interposição de verso de quatro, ou, raramente, de duas sílabas, entre a quinta e a sexta linhas da Sextilha, formado pelas interjeições: "ai! e ui! ou ai! e hum!" Após cantar outros estilos com José Soares do Nascimento, Severino Pinto mudou para Gemedeira:
Cantei Mourão a Galope, Com a supressão de "ui! ui!", teremos o sexto verso com duas sílabas, conforme estrofe de José Soares do Nascimento:
Sem querer tirar nem pôr, Dissemos, no início deste capítulo, que trinta e seis eram os estilos da Poesia Popular. É bem verdade que não descrevemos esse total, pois achamos melhor estudar aqueles ainda em uso, com maior ou menor intensidade. Todavia, considerando seus grandes empregos no passado, faremos um ligeiro estudo sobre a Quadra e sobre a Ligeira.
19 - Quadra Definitivamente retirada da área do improviso, a Quadra é constituída de uma estrofe de quatro versos, que podem ser de sete ou de dez sílabas. O conhecido escritor cearense Dr. Manoelito Eduardo Campos, em sua desabusada obra "Cantador, Musa e Viola" traz esta Quadra famosa, atribuída a José de Matos, cearense do Cariri:
No seio da Virgem Pura, O jovem trovador cearense e jornalista gabaritado, César Coelho é o autor destas belíssimas Quadras, que nos escrevemos com satisfação:
Coisa linda é madrugada,
Quero a paz do teu carinho,
20 - Ligeira Como a Quadra, a Ligeira está afastada totalmente do terreno do improviso. Sua denominação vem do fato de ser cantada com a maior rapidez possível. O Cantador fazia versos de sete sílabas, com rimas obrigatórias para os de ordem par, e sem número de linhas determinado. No capítulo anterior, temos um exemplo de Ligeira, na saudação do poeta Manoel Bandeira aos violeiros do Nordeste. Finalizando o estudo sobre os gêneros principais da Poesia Popular, confessamos que o fizemos com o propósito de prestar, aos amantes da nossa "Poesia Bárbara", certos esclarecimentos que há tempos eram esperados.
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