A Dona Previdência

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I
Previdência, bela senhora,
Tu ainda és uma amiga,
Mas não igual para todos.
Para uns, tu és farta,
Para outros, tu és mísera.
Teu vestuário é variado:
Para os ricos, és rica,
Para os pobres, és pobre.
Quem labuta muitos anos
De trabalho (quase) forçado
Não sabe o que é conforto,
Nem mesmo no fim da vida.
Quem trabalha poucos anos,
Mesmo assim levemente,
Recebe muitos cuidados
E muitos outros ‘poréns’.
Mesmo assim dona previdência,
Eu cá, não lhe desgosto,
Eu até lhe simpatizo,
Pelo pouco que tem feito.
A senhora não tem culpa,
Já lhe fizeram assim:
O direito é todo lindo,
O esquerdo é todo ruim.
Mesmo agora, nesta hora,
Com desculpas descabidas
Querem lhe arrancar a roupa,
A título de justiça.
Que justiça mesmo é esta?
Que premia alguns
Em detrimento de outros?
Mas que justiça é esta?
É culpada ou inocente?
O que acha, minha senhora?

II
Os demais, os inocentes,
Os honestos trabalhadores,
São os humildes punidos,
Pelo crime dos injustos
O seu dinheiro é sagrado:
É uma bolsa elegante
Com fechos enfeitados
E um buraco no fundo.
O assalariado, o segurado,
Põe seu dinheiro suado,
Sua moeda molhada,
De lágrimas e sangue.
O bem aquinhoado
Joga o que lhe sobra:
Um belo saco de ouro,
Enfeitado de brilhantes.
É por isso, minha senhora,
Que existe diferença?
Deve ser por causa disso.
Hoje não se escondem mais
Seus negócios escusos,
Seu dinheiro desviado,
Seu destino mais impuro.
É por causa das justiças
Que hoje se fazem gritar,
Agora querem mudar,
Mexer nos seus atributos.
Não sei como vai ficar,
Eles querem é dizer
Que a mudança vai igualar
O que nunca foi igual.
Se antes já era difícil
Ter um fim de vida decente
Depois será impossível.
Não haverá quem agüente.

III
Hoje os tempos são outros,
A reforma tão sonhada
Ainda está ...‘enrolada’.
Como o feitiço que vira
Para o próprio feiticeiro,
Estão todos em polvorosa.
Nos tempos anteriores
Era muito perigoso
Esperar reforma justa,
Não iria melhorar.
Espero que agora,
Minha bela senhora,
Talvez cheguemos
A um bom resultado,
Pelo visto, tem
muita briga no pedaço.
Eu a vejo agora
Como a caça suculenta,
Ainda fresca, vivinha,
Que as feras vem dividir.
Mas, filé, não há pra todas,
Alguém ficará em falta.
De quem será, de quem?
Fico triste se este filme
Vai se repetir igual:
Os mais fortes abocanham
A parte principal.
seus ossos, minha senhora,
Nas patas e bocas do povo,
Se ele é quem merece
Não só merece, precisa,
De uma coisa melhor.
Vamos ver como ficará
O placar final:
ELITE 1 x POVO 0
Não é melhor igualar?
Assim ao menos agora
Alguma justiça se fará.
Não deixe, dona, não deixe,
Este mal perpetuar.


DENISE CAMILLO:
Editora e revisora, Administrador de Empresas, Locutora e Produtora de rádio.
Participou de Coletâneas pelas Editoras TABAS Cultural e Litteris Editora, na década de 90 nas categorias prosa poética e poesia.
Estreou no quadro “Novos Talentos”, do Programa Musical “Melodias de Todos os Tempos”, Rádio Carioca (1993), produziu e apresentou a “Crônica do Dia”; “Novos Talentos” e “Curiosidades” do programa, onde integrou a equipe de produção.

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