Ser escritor é como contrair um vírus benigno. Uma vez instalado, ele se manifesta quando menos se espera, e às vezes quando mais se precisa.
Sim, este vírus, o da doença de escrever, é o único que o possuidor, o escritor, provoca e aguça com relativa freqüência, cujos sintomas são exteriorizados quando escrevemos.
Tal como a coceira, a provocar um entranho prazer, seu ataque é sentido palavra a palavra, desde seu começo bem suave, até o auge incontrolável das unhas arranhando a pele e finalmente terminando com uma suave carícia, para acalmar a região afetada e devolvê-la a seu estado de normalidade.
E por que é um vírus?
Porque sendo o vírus um ser misto, entre animal e vegetal, uma espécie “mutante”, portanto difícil de combater, é praticamente impossível matá-lo ou expulsá-lo do organismo, e porque também, quando bem entende, resolve manifestar-se.
Ele faz parte de nossas células, mas um invasor interno bem vindo. Ele vive latente, e aparece quando nosso sistema imunológico intelectual abre a guarda.
Mas, felizmente, as conseqüências são nada desastrosas para o corpo e para a mente. Ele não nos priva de nossa vida normal. No máximo, obriga-nos a dar-lhe atenção por alguns minutos ou horas diárias, ou dias da semana. Assim, o adaptamos ao nosso cotidiano sem nenhum prejuízo à casa, família, trabalho, amigos ou amor.
Nunca ouvi dizer que algum escritor perdeu tragicamente uma dessas coisas por causa de estar escrevendo. E também nunca soube de algum escritor ir ao médico para prescrever-lhe um comprimido anti-escrita, ou que sentiu dores terríveis escrevendo. Ao contrário, sentimo-nos sempre, eu creio, muito bem, até realizados.
Cheguei a esta conclusão ou descoberta após tentar não escrever durante uma viagem, e o que aconteceu para meu espanto?
O vírus apareceu, eu tentei controlar-me, sem sucesso. Inclusive não levei papéis. Escrevi dois textos sobre a folha de uma revista, como agora estou fazendo sobre uma folha de jornal, num sábado ensolarado, sobre as areias de Ipanema. Mas é uma crise adorável! Nunca senti-me tão bem!
O único problema é nem sempre estar à postos para escrever imediatamente. Para viver bem com minhas crises, terei sempre um caderninho ou algo parecido. Uma boa idéia é a agenda, comprei uma só para este fim, que intitulei de Agenda Poética e abri com uma “poesia” em sua homenagem. Resolvi pôr em cada dia numa poesia, fazer um diário poético.
Até a próxima crise!!!
DENISE CAMILLO:
Editora e revisora, Administrador de Empresas, Locutora e Produtora de rádio.
Participou de Coletâneas pelas Editoras TABAS Cultural e Litteris Editora, na década de 90 nas categorias prosa poética e poesia.
Estreou no quadro “Novos Talentos”, do Programa Musical “Melodias de Todos os Tempos”, Rádio Carioca (1993), produziu e apresentou a “Crônica do Dia”; “Novos Talentos” e “Curiosidades” do programa, onde integrou a equipe de produção.
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